Postado em 22 de maio de 2020

Gestão pelo medo e o mau uso do poder nas empresas.


“Quando o medo se torna filosofia do negócio ou slogan da empresa, o ambiente de trabalho saudável, inclusive do ponto de vista psicológico, não existe mais., escreve Maria Inês Vasconcelos, advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora”, em artigo publicado por EcoDebate, 19-05-2020.

Eis o artigo.

Uma nova cena invade o trabalho. Legião de trabalhadores doentes, acometidos de Síndrome de Burnout e exaustão atingindo índices alarmantes. Não há dúvidas, as condições de trabalho estão mudando, de modo a ficar mais duras. É preciso cada vez fazer mais e melhor. E, assim, algumas empresas estão levando seus empregados à beira da loucura, através da implantação do medo. Trabalhar se tornou roleta russa.

A prática de usar o medo para potencializar resultados é, infelizmente, uma prática de poder. Decorre de uma cultura rasa e piegas dentro das empresas que enxergam seus funcionários a partir de uma visão assimétrica. Manda quem pode, fica com medo quem tem juízo.

Essa forma de gerir faz exigências produtivas através da subjugação e intensa pressão psíquica para movimentar o trabalhador em direção à proposta empresarial. A técnica é dominar através do medo para forçar a fazer aquilo que se deseja. É uma verdadeira cooptação mental. Uma lobotomia.

O método engloba uma série de “habilidades”, para não dizer perversões estratégicas. Dentre as técnicas utilizadas: humilhação, diminuição, desarticulação, influência e também persuasão. Essa ferramenta de gestão repousa na arrogância, no cinismo e em ameaças como dispensa, transferências, boicotes, adoção de políticas de represália, avaliações para punir e submeter, publicamente, os empregados que obtiveram os piores resultados a rituais e situações humilhantes e degradantes. Colocam-se as pessoas umas contra as outras, provoca-se medo e vergonha para gerar conduta de obediência, entre outras.

Não há qualquer preocupação com a interferência desse fenômeno na qualidade de vida do trabalhador. Pelo contrário, o objetivo é imediatista e não há nenhuma projeção de futuro. É apenas uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. O ímpeto de sua implantação é aumentar o lucro, através da manipulação das emoções pelo mau uso do poder.

Não há como seguir sem ultrapassar Foucault, no ponto em que mostra que todo poder busca colocar sua marca no corpo ou, inversamente, o corpo é o receptáculo privilegiado da vontade de poder.

Quando o medo se torna filosofia do negócio ou slogan da empresa, o ambiente de trabalho saudável, inclusive do ponto de vista psicológico, não existe mais. O corpo do empregado como um todo é atingido e o brocardo “mens sana in corpore sano” se torna mera ficção.

O ataque a um clima organizacional harmônico, integrativo e as perversões deste regimento ao longo prazo provocam, a médio prazo, a disseminação da doença, afinal o medo está relacionado a uma experiência similar à perda da identidade, da autonomia e, do poder de ser.

Triste é ver que nem mesmo a pandemia pelo novo coronavírus aumentou a intensidade desse fenômeno. Ao que tudo indica é uma visão deturpada. Um retrato do que se faz por imediatismo. Os resultados chegarão, assim como os custos.

Decisões gerenciais que tenham por objetivo o lucro, sem qualquer tipo de mediação com a saúde física e mental, são maneiras completamente irresponsáveis de gerir e um problema seríssimo para o mundo do trabalho. Com certeza, o judiciário, se acionado, não crivará tais métodos. A dignidade do trabalho é pilar do Estado Democrático de Direito. Contudo, são épocas em que a identidade do homem vem sofrendo ataques constantes.

A humanidade caminha sabe-se lá para onde, ainda não refeitos o anticlímax da Covid-19. E é tudo isso consequência da descartabilidade do trabalho e indicativo de sua desvalorização.